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A Bruxa e as Irmãs das Chamas

A porta se abriu com um estrondo e entraram duas figuras vestindo um manto preto, já conhecidas.

– ORA, ORA, SE NÃO SÃO O VELHO DARIAN E O JOVEM KYROS denovo!!! A QUANTO TEMPO meus amigos

– Como vai Contan – respondeu Kyros se sentando em uma das mesas.

– O movimento vai bem velho bardo? – perguntou Darian.

– Olha só quem me chama de velho! O VELHO DARIAN!!! O movimento vai bem amigos e para vocês? Cadê os monstros?

– Ficaram muito retalhados para podermos trazer alguma parte – disse o desanimado Kyros.

– Vocês repararam que sempre que vocês vem aqui vocês não trazem prova nenhuma… – disse o ajudante de Contan, que foi silenciado com um soco!

– ORA CALE-SE! Mas  QUE SEJA! Mas vamos lá CONTE-NOS SUA HISTÓRIA!

Sentados na taverna, algumas estranhas figuras: um cara com uma calça azul, uma estranha blusa de couro e um chapéu em forma de cogumelo na cabeça, do outro lado um estranho pálido que usava umas bizarras lentes pretas nos olhos. Todos eles esperavam ansiosamente a história! 

 

Backer deu uma boa golada em seu cantil e despejou o resto na cabeça suada, ele estava bastante cansado, pela manhã tinha levado suas cabras para pastar e agora ao fim do dia, as guiava de volta para o seu pequeno curral. O Sol já estava prestes a se pôr e essa noite seria noite de lua cheia. Ele conduziu os animais para a lateral da casa onde os prendeu num cercado de madeira, tinha colocado arame e alguns espinhos no alto para aplacar o ataque dos lobos, trancou o portão e ficou torcendo para não ter nenhuma perda aquela noite. As pessoas de Smithplain seguiam sua rotina, mas se apressavam para fechar as casas e lacrar portas e janelas; a taberna passava o dia aberta normalmente, mas em noites de lua cheia não costumava fazer hora extra; Elder Smith e Jane Clain fizeram as orações básicas de proteção para a vila; a estalagem continuou funcionando, mas de portas fechadas; animais eram escondidos dentro das casas e as crianças pequenas iam cedo para a cama; enfim essa era a rotina de Smithplain, vilarejo pequeno que ficava a beira de uma densa floresta, que era recanto dos lobos, a vida era tranquila, até aquela noite…

Quando a noite caiu, Backer já estava dentro de sua casa com tudo trancado. A lua começava a subir deixando toda a cidade à beira da floresta, clara, com as sombras fazendo um esforço ínfimo para se imporem na paisagem. Backer estava sentado em sua poltrona e tinha acabado de encher um copo de leite, quando um uivo cortou o silêncio da noite. Esse foi seguido por outros sucessivamente, até que uma cacofonia sinistra tomava conta da noite, um verdadeiro concerto lupino.

O ladrar de alguns lobos já podia ser ouvido de dentro da vila, sinal que os animais já tinham começado a caça. As cabras faziam muito barulho, Backer tentava controlar o impulso de sair de casa, mas sabia que isso era no mínimo insensato. Um lobo soltou um uivo alto e prolongado, bem perto da casa de Backer, quando um guincho extremamente alto e estridente, irrompeu da floresta calando o animal. Aquele som, fez Backer gelar até os ossos, mais e mais guinchos começaram a ressoar pela noite, afugentando todos os lobos.

Nunca antes se tinha ouvido aquele som em Smithplain, um chiado estridente muito parecido com um gemido de desespero e o mais aterrador: tinha traços levemente humanos. A curiosidade tomou conta da vila, Backer pode ouvir janelas sendo destravadas e algumas pessoas tinham saído de casa, todos queriam saber do que se tratava o som que simplesmente cessou o ataque dos lobos, Backer era uma dessas pessoas.

Backer ameaçou colocar a cabeça para fora: nenhum sinal dos lobos, algumas pessoas faziam o mesmo, outras arriscavam o corpo inteiro para fora e Backer resolveu sair também. Da frente da sua casa no meio da rua ele tinha uma boa vista da floresta, mas mesmo com a claridade do luar, a densa floresta parecia negra e irrepreensível, e só com muito esforço Backer imaginou ter visto alguma coisa se mexendo no negrume da mata. Alguma não, algumas…

Backer franzia o cenho na esperança de enxergar algo, quando um grito lancinante explodiu a poucos metros a sua retaguarda: uma mulher era atacada cruelmente por duas criaturas, um dos monstros rasgava o vestido da mulher, e outro puxava seu braço enquanto lhe aplicava uma mordida, no pescoço já estava deflagrado uma lesão mortal. A violência da cena chocou todos os que presenciaram, afinal todos se conheciam em Smithplain, e ver a filha do estalajadeiro sendo destroçada daquele jeito era assustador para todo mundo, antes que qualquer ajuda fosse prestada, uma dezena daquelas malditas criaturas irrompeu da floresta, fazendo que todas as pessoas fugissem para salvar suas vidas.

Aquela foi uma noite que ficou marcada em Smithplain, muitas pessoas morreram naquele dia e os ataques se tornaram constantes em noites de luar. Os lobos foram substituídos pela aquela horda infernal, e agora era questão de tempo até que o vilarejo fosse completamente destruído.

 

 

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Dois andarilhos trajados de negro, percorriam a floresta observando, escutando e farejando tudo a sua volta. As duas figuras solitárias caminhavam lentamente, remexendo no folhiço, e observando marcas nas árvores ou no chão.

–  A maioria dos sinais confluem para essa trilha, as criaturas devem fazer esse caminho com certa frequência, vamos descansar um pouco e nos preparar – disse mais velho dos dois.

– Ainda acredito que sejam apenas carniçais, mas confesso que estou morto de fome, vou caçar algo para comer enquanto você prepara a fogueira – respondeu o mais jovem de cabelos castanhos e desapareceu na escuridão da floresta.

Darian Horner colocou as tralhas no chão e saiu a procura de madeira ou qualquer material vegetal seco. Depois de acumular um boucado de gravetos e folhas, ele se sentou e retirou uma pedra de algum lugar do manto, com uma faca e bastante esmero ele retirou uma pequena lasca de tamanho irrisório da pedra. Aproximando a faca do folhiço, ele raspou com força a lasca de pedra na lâmina gerando um forte estalo e criando uma linha incandescente por onde a pedra passou, antes que se apagasse ele enfiou a faca no folhiço e começou a preparar sua fogueira. Depois que o fogo estava estabilizado e um forte clarão penetrava nas áreas escuras da floresta, ele retirou mais outra pedra de algum lugar do seu manto, essa de coloração quase violeta, quebrou pequenas lascas e lançou ao fogo. Imediatamente uma coloração azul irrompeu das chamas, transformando a fogueira de um amarelo radiante em uma penumbra arroxeada.

O fogo alquímico, criado pelo renomado alquimista Don Van Latcheswarden, consistia na combustão de uma pedra sintética, que emitia coloração azul. O fogo alquímico mantinha todas as propriedades de uma chama comum e tinha suas próprias: primeiro que a coloração azul espantava os animais ao invés de atraí-los, segundo que o brilho azul revelava coisas escondidas, desde pigmentos naturais até tintas invisíveis sintetizadas com esse propósito. Uma terceira propriedade era de pouco conhecimento do senso comum, o fogo alquímico podia revelar também segredos de outros mundos e criaturas sobrenaturais… Não era nenhum segredo que magos e alguns exorcistas usavam tal elemento em seus projetos e foi estudando esses profissionais, que Latcheswarden conseguiu sintetizar algo que antes só era possível através da magia.

Kyros voltou trazendo uma lebre, se sentou na companhia do ancião que lia um livro sob a luz azulada e começou a preparar o animal.

– Kantbeh de novo? – perguntou o jovem olhando com desdém.

– Era você quem deveria lê-lo.

– Não, obrigado, prefiro Allestrin ou Grexus.

– Respeito muito as narrativas de Grexus, mas de uma forma ou de outra fantasia é para poetas e menestréis, você ganharia muito mais se desse uma chance para textos mais políticos ou filosóficos.

– Nhaaaa! Prefiro curtir o momento, não vejo necessidade de me tornar um erudito, nosso trabalho nem nos garante uma vida longa…

– Humpf! – pigarreou o velho.

– Será que um dia serão escritas histórias sobre nós? Será que nos tornaremos personagens dignos de serem cantadas lendas?

– Não seja bobo criança. Graças ao “nosso trabalho” estamos mais destinados a perecer em alguma paragem exótica, do que às páginas dos livros. Além do que os guerreiros da Ordem não tendem a se tornarem míticos, a Ordem é muito mais lembrada nos livros de Wangertheren e Kempthgall do que nos contos de fada.

– É verdade, uma pena que Wangertheren seja maçante e faz apenas narrativas históricas, gostaria mais de ver a ordem nas páginas de um Grexus.

A diálogo ainda se demorou enquanto comiam despreocupados, uma vez que animal algum se aproximava do fogo alquímico. Terminada a ceia, os viajantes começaram os preparativos.

Ambos despiram-se de seus mantos e retiraram os cinturões, recolocando os mantos e amarrando os cinturões por cima logo em seguida. O ideal ao se caminhar dentro de uma mata fechada seria carregar a menor quantidade possível de pano, para evitar que se prendesse aos galhos, mas com o frio considerável concordaram em apenas prender o manto junto ao corpo diminuindo a quantidade de tecido a drapejar. O mais jovem afiou cuidadosamente uma longa faca curva que carregava no cinturão e uma adaga menor que trazia presa à perna. Abriu o grande embrulho que trazia consigo, que continha além de apetrechos de viagem algumas lâminas e espadas. Lá depositou a gigantesca espada que carregava nas costas e retirou uma menor e mais adequada ao combate em lugares fechados, refazendo o embrulho logo em seguida. Vestiu um par de luvas com fronte de aço que protegia o pulso e deixava as pontas dos dedos expostas. O mesmo esmero teve o mais velho, se munindo de uma faca curva gêmea à do jovem, e uma espada curta as costas, guardando a espada maior, que ainda era menor que a do jovem, nas suas próprias trouxas. Depois de tudo pronto, deixaram as grandes trouxas escondidas e prepararam uma tocha com o fogo azul que já estava ganhando a velha coloração amarela, apagaram a fogueira e continuaram sua jornada floresta adentro.

Eles caminharam por trilhas sinuosas ora juntos, ora separados, tentando cobrir uma área maior, procurando rastro de tocas de ghouls. Em menos de 40 minutos de caminhada, eles se depararam com uma região mais aberta de mata, que exalava uma aura azulada.

– Ora, ora! Veja isso… – disse Darian.

– Parece que temos um campo revirado – completou Kyros já posicionando a mão na empunhadura da espada e ficando alerta. A área era mais aberta que o restante da floresta, mas não se parecia uma clareira natural, o aspecto remetia claramente à interferência humana. Aqui e ali algumas pequenas árvores estavam cortadas abrindo o espaço, montículos de terra se espalhavam por toda a área que era iluminada por diversos pontos azuis flutuantes.

– É mais do que isso – Darian se aproximou da fonte da estranha aura azul: Era uma erva – Isso é uma Dama da Sepultura.

– Damas da Sepultura são comuns em cemitérios, eu já vi muitas e não se parecem nada com isso.

– Humpf! Pois você deveria melhorar seus conhecimentos em botânica, mesmo sendo um guerreiro a maior parte da sua vida será passada nos ermos, e conhecer cada tipo de planta pode ser vital para sua sobrevivência. A Necropendra ignis também conhecida como Dama da Sepultura, Capim Flutuante, Guardiã da Encruzilhada, Ponga Ponga, enfim. A Dama da Sepultura pode apresentar duas estratégias metabólicas distintas: a fotossíntese, quando ela mantem a coloração verde tradicional e apresenta flores, o aspecto que você deve conhecer. Mas ela também é uma saprófita, e na presença de matéria orgânica em decomposição ela apresenta este aspecto.

Agora sob a luz da tocha, Kyros via claramente o aspecto da erva: o arbusto de pouco mais de 1m de altura era todo acinzentado e quase não tinha folhas, mas ao longo de todo caule várias estruturas ramificadas aglomeradas em fascículos apontavam para cima, para depois cair num arco sob o peso de pedúnculos nas pontas. Era essa estrutura, semelhante a um tufo de capim, que brilhava sob a luz da lua e emanava a aura azulada.

– Na presença desse tipo de recurso – continuou Darian – ela opta por uma rota metabólica diferente. Ela praticamente perde toda substância verde usada na fotossíntese, assim como suas folhas e passa a se alimentar da matéria morta sob suas raízes. Para auxiliar nesse processo ela produz essa substância que dá a cor cinzenta, e que é fosforescente

– E o que são essas estruturas? Flores? – Kyros notou que os filamentos fosforescentes eram transparentes e era o líquido que permeava seu interior que brilhava.

– Não, ela abre mão da sua reprodução tradicional e cria essas estruturas para produção de esporos – deu um peteleco na extremidade mais bojuda do filamento e uma pequena nuvem de poeira brilhante pairou no ar – Ela coloniza toda região com seus clones para explorar o máximo possível do recurso.

Kyros soltou um assobio longo olhando para toda a região com terra remexida e pontos azuis flutuantes.

– Parece que temos um cemitério clandestino aqui.

– Sim, a questão é: quem andou cultivando-o?

Era uma questão de tempo e logo aconteceu. Rugidos agudos começaram a ecoar na região, se assemelhavam a grasnados roucos mas emitidos por criaturas de cordas vocais mais poderosas. Logo a terra em volta deles estava se remexendo com mãos se projetando do chão, como se um grande formigueiro tivesse sido acordado.

Eram os carniçais: seus corpos eram esqueléticos e a pele tinha uma coloração acinzentada; a cabeça era calva e os olhos vermelhos e malignos; dentes pontiagudos e molares feitos para triturar ossos; longos membros anteriores e posteriores permitiam as criaturas andar sob duas ou quatro patas e dar longos saltos, nas mãos 5 dedos longos terminavam em afiadas garras.

O primeiro vulto “voou” na direção deles de uma distância de mais de 3 metros… e coincidentemente se dividiu em 3 sob os poderosos golpes simultâneos das duas espadas que paralelamente o cortaram da cabeça ao rabo. Com a chuva de sangue que caiu sobre eles a carnificina começou!

Kyros e Darian se posicionaram costas a costas e deram combate a chuva de carniçais. Criaturas se aproximavam a toda velocidade tanto pelo chão como pelo ar, as vezes saltando diretamente do chão, outras vezes tomando impulso nas árvores e se jogando sobre os adversários.

A espada de Kyros decepou um monstro que vinha da esquerda e num giro já arrancou o braço de um que vinha das alturas, três se aproximavam lado a lado, ele cortou metade da cabeça de mais um e arremeteu contra os três, com dois saltos rápidos na direção dos monstros Kyros saltou e chutou com tudo a cabeça do que vinha a frente, ao cair no chão em pé, já desceu a espada cortando diagonalmente de cima a baixo o monstro da direita, e girando arrancou a cabeça do terceiro; um carniçal grudou e mordeu o braço esquerdo que guiava a espada no momento do ataque, com a mão direita Kyros desembainhou a faca da cintura, atravessou tranquilamente a cabeça do carniçal que soltou o braço, empunhou a faca e arremeteu contra mais dois adversários.

Darian recebeu uma carga frontal de sete carniçais e com sete ataques consecutivos, num sobe e desce sanguinário eliminou os monstros; um se jogou contra suas costas mas sem se virar Darian apoiou a lâmina sob o braço virada para trás empalando o monstro com o peso do próprio ataque, retirou a lâmina já fazendo um arco em ascensão e abrindo as vísceras de mais um.

Um colugo solitário no alto de uma das árvores via a seguinte cena: um campo com árvores esparsas, iluminado pela lua, por uma tocha amarela caída no chão e por estranhas fogueiras azuis flutuantes. Em tal palco dezenas de criaturas esqueléticas se jogavam de todas as direções sobre duas estranhas figuras portando mantos e espadas. O efeito visual era acentuado por explosões de sangue, o brilho das luzes refletido em arcos nas espadas e as estranhas chamas que explodiam em nuvens de pó brilhante com a movimentação. A trilha sonora era regada pelo silvo das lâminas cortando o ar, pelos grasnados das criaturas mutiladas, pelo barulho de carne explodindo a pela chuva de sangue que banhava o local. Ao colugo apenas um pensamento tinha lugar em seu pequeno cérebro: as “flores” azuis seriam tão apetitosas quando sugeriam?

Parecia ter acabado. Kyros e Darian estavam banhados de sangue, assim como toda vegetação em volta, mantinham as espadas em punho enquanto perscrutavam as redondezas a procura de mais ghouls. A clareira brilhava bem mais agora com os esporos brilhantes das Damas da Sepultura pairando no ar.

– Duvido muito que isso seja um cemitério regularizado, não há lápides e as pessoas de Smithplain teriam nos avisado – disse Darian limpando a lâmina no manto.

– Alguém anda enterrando corpos por aqui já a um bom tempo – completou Kyros.

– Sim, mas quem? Ou o que?

– Uma bruxa claro!

– Não acho – contestou Darian – As pessoas teriam nos avisado de uma bruxa na região. Os ataques dos carniçais ao vilarejo começou à seis meses, sinal que esse “cemitério” deve ter menos de um ano. É um trabalho árduo enterrar tantos corpos em tão pouco tempo.

– Mas é sim uma bruxa, de manto sujo, pele enrugada, nariz adunco e tudo o que o figurino permite.

– Como pode ter tanta certeza?

– Porque ela está ali nos observando! – disse Kyros apontando para a solitária figura que os observava.

 

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A velha era horrenda: tinha 1,60m se medida dos pés à corcunda, que era o ponto mais alto do corpo, a cabeça se situava mais abaixo à uma altura de 1,30m aproximadamente; usava roupas esfarrapadas e destruídas que exalavam um forte cheiro de terra fresca; a cara era deformada, o nariz era comprido e proeminente e os dentes eram levemente pontiagudos.

– Cuidado, bruxas são adversários formidáveis e você não está habituado a enfrentar adversários mágicos. – alertou Darian.

– Oras! é só uma velha escrota, ela se corta como qualquer outra coisa quando se bate com a espada.

– Não a subestime.

Ambos começaram a andar na direção da bruxa, que se virou e disparou floresta adentro, fazendo-os correrem atrás dela. Kyros sofreu uma vertigem quase instantâneamente.

– Para onde você vai garoto? – virou Darian chamando Kyros que havia se virado e estava correndo para baixo;

– Han? – Kyros notou a confusão, segundos atrás ele estava em disparada colina acima seguindo o rastro da bruxa, mas agora subitamente se encontrava virado para a direção oposta. Como se não bastasse a confusão, um zunido muito alto estourou dentro de sua cabeça, lançando-o ao chão.

– Kyros, fique para trás. Você não é apto com proteção mental, sua mente não é fechada o bastante para enfrentá-la.

Kyros nem sequer respondeu, sua cabeça explodia em dor e ele se encontrava desnorteado e babando. Darian seguiu o vulto que já a muito se distanciava, com a espada em riste e com muita experiência ele conseguia impingir um ritmo forte em sua perseguição, mas a vasta experiência habitando anos aquela floresta fazia com que a bruxa se distanciasse cada vez mais. Num determinado momento a bruxa parou e Darian notou que ela segurava uma vela, Darian se aproximou com cuidado ainda a uns 15 metros de distância, pois sabia que só podia se tratar de algum feitiço. A velha recitou alguma coisa numa língua indecifrável e soprou a vela: uma escuridão recaiu por toda a floresta.

Kyros ainda estava se recuperando do som, quando uma escuridão se abateu. Ele ainda podia ver o brilho da chama causada pela tocha derramada, mas essa não clareava poucos metros ao redor. O mesmo podia se dizer da luz da lua, que ainda era visível e brilhava alto no céu, mas não iluminava a imensa floresta abaixo, o breu dominava tudo, tirando todo e qualquer senso de direção. Após esperar seus olhos se acostumarem um pouco com a escuridão, ele notou um estranho brilho laranjado dançando ao longe.

Darian estava perscrutando a escuridão quando um pequeno bastão de fogo apareceu flutuando à uns 10 metros de distância. A peça flutuava, gingava e se aproximava numa dança envolvente, Darian já tinha ideia do que se tratava mas quase não pode se defender quando o objeto se aproximou de uma vez. Se tratava de um agzakh, uma mistura de lança com espada, com um cabo de quase 30 cm e uma lâmina serrilhada de 1m30, o brilho laranja vinha da lâmina que crepitava em chamas, empunhando-a havia uma figura esguia trajada de negro, uma Irmã das Chamas!

Não se sabe quando a Ordem dos Adoradores das Chamas surgiu, mas historiadores afirmam que o Culto as Chamas é tão velho quanto a própria humanidade. Acredita-se que os humanos – e outras espécies – adoram o fogo desde o momento em que conseguiram controlá-lo, e esses “cultos” sempre estiveram presentes durante a ascensão da humanidade, e foi crescendo despercebidamente até se tornar uma ordem religiosa de fato – com templos espalhados por várias metrópoles. A Ordem dos Adoradores das Chamas não cultua um deus específico, mas ao Fogo propriamente dito. Pouco se sabe sobre as crenças e profecias da seita, uma vez que eles não pregam uma “Palavra” como a Igreja o faz, mas não é segredo para ninguém que sua doutrina se baseia na ideia de que o fogo tenha sido o progenitor da vida – ou uma das ferramentas do Criador de acordo com a Igreja – e criou as nuances – bem e mal, luz e sombra – num mundo onde antes só existia o Caos. É um mistério também como funciona a organização social da Ordem dos Adoradores das Chamas, apesar dos templos serem grandiosos e pomposos, não são realizados ritos abertos ao público, e apenas os aceitos sabem de fato o que acontece nos círculos internos, também não são conhecidos nenhum Líder supremo, apesar de se acreditar que os diversos templos não ajam individualmente e sejam controlados por uma mesma mente. Apesar de todo o mistério algumas classes são bem conhecidas por todos: os Arcontes são os líderes máximos de cada templo, alguns são famosos e vivem a vida com muita pompa e luxúria, outros são reclusos e nunca foram vistos por ninguém; os Piromantes são os iniciados nos mistérios do controle do fogo, e depois do expurgo dos magos, os piromantes são tidos  como os “feiticeiros” do mundo iluminado; os Andarilhos das Cinzas, os cavaleiros da Ordem dos Adoradores das Chamas, que são raramente vistos, de comportamento caótico e objetivos desconhecidos; e por fim as famosas Irmãs das Chamas, garotas que ingressam ainda jovens na ordem e desde de cedo se casam com as chamas. As Irmãs das Chamas são treinadas em artes marciais e nas lutas com armas e desde cedo fazem do fogo seu principal amante. Não possuem o controle do fogo dos piromantes, mas aprendem a lutar mantendo as armas incandescentes sob uso da Pedra do Fogo – piranita como os alquímicos chamavam. As Irmãs das Chamas são as mais fanáticas classes da Ordem dos Adoradores das Chamas e as mais implacáveis guerreiras, trajando sempre preto são adoradoras ávidas do fogo, sempre apresentando grandes partes do corpo completamente queimadas. As Irmãs das Chamas são uma das principais fontes financeiras da Ordem dos Adoradores das Chamas, que as treinam a vida toda e depois as vendem como escravas, muito requisitadas por nobres, membros do clero, cavaleiros e até pelos raríssimos magos ou bruxas, onde são usadas como guarda-costas.

Darian defendia como podia os rápidos ataques da Irmã das Chamas e sabia que se vacilasse por um momento poderia ser fatal. Ele aplicou um amplo ataque na vertical usando as duas mãos, golpe facilmente desviado e contra-atacado com um golpe semelhante do agzakh. Ele sentiu a lâmina fervente passar a poucos centímetros do seu rosto causando um leve lacrimejar, um golpe bem sucedido de uma arma pegando fogo demoraria meses para cicatrizar – se sobrevivesse a batalha claro! Um golpe horizontal de chocou em cheio com o agzakh fazendo explodir faíscas, porém com o movimento a Irmã fincou a lâmina no chão para se apoiar e num giro acertou um chute certeiro no rosto de Darian. O velho pode notar que a Irmã estava descalça e apesar de apresentar os pés queimados, a carne acima do tornozelo e branca e lisa deixando claro se tratar de uma Irmã bem jovem, provavelmente a serviço – e a mercê das perversões – da Bruxa desde cedo. A luta continuava quando ele ouviu um som que lhe gelou a espinha… passos, vindos da escuridão em sua direção o que o fez de lembrar de um fator muito importante: as Irmãs das Chamas não são chamadas assim em analogia com as irmãs da Igreja, mas sim porque nunca lutavam sozinhas…

Kyros podia ver Darian se digladiando com uma Irmã das Chamas, essas guerreiras mercenárias causavam repulsa em muita gente, mas Kyros nunca foi preconceituoso e sempre admirou as valorosas – porém loucas – guerreiras. Durante uma passagem pela cidade de Baring, ele dividiu um quarto por três dias com uma delas, a garota não era de muitas palavras e devia estar em alguma missão, mas não viu problemas em dividir uma cama com Kyros. Ele se lembrava bem, a moça era linda apesar de ter todo o braço esquerdo praticamente carbonizado, e era quente sob todos os aspectos… o Culto das Chamas não condenava o sexo como a Igreja o fazia, pelo contrário, eles o adoravam como algo mágico assim como os pagãos sempre fizeram. Dormir com uma Irmã das Chamas era uma tarefa difícil e arriscada e os que sobreviviam a experiência juravam valer a pena cada momento, Kyros sabia disso! Kyros se aproximou da batalha calculando o momento certo de atuar, quando ele escutou passos vindos na sua direção.

Darian viu quando um vulto trajando preto saltou da escuridão em sua direção, não daria tempo de esquivar e não podia abrir a guarda por causa da outra Irmã, mas não se surpreendeu quando um braço forte envolveu a cintura da Irmã em pleno ar e num rodopio a jogou no chão. Kyros não esperou o adversário se levantar, antes que a Irmã pudesse se pôr de joelhos ele correu em sua direção e lhe aplicou um chute com todas as suas forças fazendo-a rolar mais alguns metros. O golpe lançou a Irmã para trás e lhe retirou o capuz da cabeça, revelando um rosto e um couro cabeludo completamente queimados. A espada da guerreira ainda estava apagada quando Kyros levou a mãos aos bolsos e retirou um pacote, assim que a guerreira esfregou a piranita na lâmina, Kyros lançou o frasco de óleo em sua direção causando uma explosão e envolvendo a mercenária em chamas, elas podiam amar as chamas… mas esse amor não era recíproco!

Darian continuava sua árdua batalha quando uma explosão consumiu a Irmã das Chamas recém ingressada na batalha, ele temeu que fosse um ataque suicida mas não olhou para trás, o que seria um erro infantil, mas que foi cometido pela sua adversária que desviou a atenção para o fogo – se por curiosidade, preocupação ou simplesmente adoração não se sabe – mas foi o bastante para Darian dar um ataque rápido que foi bloqueado pelo agzakh empurrando a Irmã para o lado, ela ainda estava em posição de batalha e ainda apta a defender o próximo golpe, mas isso não importava, o próximo golpe seria indefensável. Darian notou a posição precária da Irmã e viu que pela posição das pernas ela não poderia mais desviar, ele preparou um golpe horizontal mas ativou suas runas de aumento de força… a irmã facilmente preveu o golpe e o bloqueou.

Kyros se virou preparado para ajudar seu mestre quando uma explosão de sangue banhou Darian. O golpe do velho havia partido ao meio a Irmã das Chamas com agzakh e tudo.

A Irmã ainda envolta em chamas parou de se debater se entregando ao abraço da morte, Kyros e Darian agora se voltavam para a ameaça inicial, onde estaria a bruxa? A claridade natural da noite voltara, sinal que o feitiço tinha acabado e ambos seguiram colina acima direção para onde a bruxa tinha fugido.

Chegaram numa grande clareira com sinais de atividade humana: ossos pendurados em galhos, bacias contendo sangue, algumas ferramentas rústicas, odores das mais variadas essências e no chão uma enorme marca de terra batida onde ao que tudo indicava teria estado uma cabana.

– Como assim? É impossível ela ter desaparecido assim – mencionou Kyros.

– Se trata de uma bruxa, uma criatura versada nos mistérios mais antigos da magia, sua noção de “impossível” deve ser bem mais restrita que a nossa – respondeu Darian.

– Não seria mais “ampla”?

– Não, seria mais “restrita” mesmo. Nossa concepção que é mais “ampla”, uma vez que consideramos muitas coisas impossíveis, para ela poucas coisas devem ser impossíveis, visto que sumir com uma cabana inteira não o é, então sua concepção é mais “restrita”, entendeu?

– Isso está confuso Darian!

– Meu deus Kyros, é só uma questão semântica, por isso eu falo que você deveria ler menos Allestrin, e talvez focar um pouco mais em Hermenus!

– AHH!!! Tanto faz, enfim e agora o que faremos?

– Ela não vai voltar a aparecer por aqui, essa floresta é gigantesca e eu duvido que se ela se arrisque por aqui de novo, exigiremos o pagamento pela eliminação dos carniçais, avisaremos sobre o cemitério clandestino e faremos um relatório para a Igreja sobre a bruxa e deixamos eles cuidar do assunto.

Eles recolheram qualquer espólio que valesse a pena na clareira: óleos, ervas, alguns pergaminhos e voltaram para o acampamento para pegar o resto das tralhas de viagem. Kyros achou ter ouvido um barulho e se voltou para trás: ao longe um pássaro gigante estava pousado no chão… não, não era um pássaro, era apenas um pé de um pássaro, ele podia jurar e tinha mais de 5 metros de altura onde ostentava uma cúpula redonda no topo aparentemente feita de madeira e teia de aranha. O “pé de pássaro” saltou floresta adentro sumindo em poucos minutos.

– Você viu aquilo não é? – perguntou um confuso Kyros, cuja cabeça ainda doía pelo ruído.

– Vi o que Kyros? – perguntou Darian se voltando para trás.

– Ah… um… um pássaro, um bem grande!

– Essa floresta está cheia de pássaros Kyros, vamos embora!

 

 

 

 

 

 

Italo
Graduando em Biologia pelo amor às variadas formas de vida e suas estratégias de sobrevivência, tenho prazeres simples como ouvir a chuva ou observar o céu noturno. Fã de música, filmes e jogos em geral, minhas maiores viagens são pelas folhas de um bom livro.

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