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Meridiano de Sangue

 

Um “faroeste moderno” no qual não existe mocinho ou bandido, um “faroeste moderno” onde não existe honra. Meridiano de Sangue é uma fábula sem objetivo e sem moral, na qual os personagens vivem e morrem pela lei da bala. Ninguém está lá para apresentar seus pontos de vistas, para divagar sobre o rumo que o mundo está tomando, eles simplesmente estão lá para jogar com as cartas que tem a mão e não existe o certo e o errado, existe apenas a lei do mais forte.

Cormac McCarthy com poucos livros lançados é considerado um dos maiores romancistas americanos, suas obras – duas delas imortalizadas por Hollywood: A Estrada e Onde os Fracos Não Tem Vez – tem sempre o mesmo teor: o de não defender pontos de vista, não apresentar bem ou mal, apenas de narrar a existência árdua e sofrida que a humanidade leva.

Em Meridiano de Sangue, somos apresentados à um personagem sem nome, o “Kid”, nascido de uma mãe morta e nunca batizado pelo pai, conhece desde cedo a violência e não lhe é apresentado nenhum futuro melhor, abandona seu passado e parte sozinho numa jornada sem rumo e sem final. Pelo caminho ele encontra e é alistado pelo o bando de John Joel Glanton – personagem que de fato existiu: grupo de mercenários contratados por autoridades mexicanas, que tinham como objeto matar e reclamar escalpos dos Apaches.

Aqui não temos um único personagem principal, “O Kid” estóico e de poucas palavras, está disposto a Sem títulofazer qualquer coisa e completar qualquer missão que lhe caiba, como um bom soldado não lhe cabe muito espaço em divagar a própria existência, nem mesmo em ser o protagonista. Divide com ele esse papel, o próprio Jhon Joel Glanton, típico líder sanguinário e genial, homem de poucas palavras e disposto a tudo em nome do dinheiro, inclusive retirar escalpos de qualquer um na falta de um índio. O mais notável e misterioso protagonista é conhecido apenas como “O Juiz”, sem um passado ou nenhuma história para contar o estranho personagem aparentemente surge e desaparece do nada a seu próprio bel-prazer, é de longe o mais inteligente de todos os membros do bando, com direito a feitos fantásticos como fabricar munição praticamente do nada no meio do deserto. Anotando tudo em sua caderneta, ele vive discutindo que nada que ELE não tenha permitido existir (e tenha contabilizado) deve existir.

Gosto de enxergar O Juiz como uma metáfora para a natureza humana: mal, inteligente, pragmático, “senhor” de todas as formas de vida e defende com argúcia que o objetivo do homem no mundo é fazer a Guerra.

Meridiano de Sangue é uma obra pesada e densa, Cormac McCarthy – como já é conhecido em seus livros – não preza pela sutileza, e abraça a violência de tal forma que nos sentimos acostumados com ela ao longo de sua obra. No início é aterrador ver inocentes – mulheres e crianças entre eles – sendo massacrados, a ponto de causar mal-estar, mas no decorrer a apatia perante a maldade e tanta que as mortes passam a ser corriqueiras.

A descrição do cenário2 é tão sublime e etérea que chega a ter uma aura mística (destaque para a descrição do fogo de santelmo, que cobre o bando de Glanton como se eles fossem cavaleiros espectrais vindos de outro mundo), se aventurar pelo meridiano de sangue é como uma viagem só de ida para o Inferno. A dissociação com a realidade que conhecemos é tanta, que Meridiano de Sangue pode ser considerado uma obra pós-apocalíptica, apesar de se passar no século IX. A jornada efetuada pelo bando sanguinário de John Glanton, é épica em todos em sentidos mas sem nenhuma glória, montanhas geladas e de altitudes indefinidas, desertos de extensão infinita, florestas tropicais, associados com o povo estranho que habita o local, especialmente com os índios portadores de badulaques e troféus macabros retirados de suas vítimas, são praticamente paisagens de outro mundo. Meridiano de Sangue faz um casamento sútil com o Realismo Fantástico – imortalizado por Gabriel Garcia Marquez – e as terras ermas da imensidão mexicana são uma emulação do Inferno de Dante, onde os personagens pagam pelos seus pecados com sua própria existência.

Enfim Meridiano de Sangue é um dos maiores romances do século XX, a obra é pesada e uma espécie de ensaio sobre a solidão e a maldade humana. O simples fato de não sermos apresentados ao passado – ou anseios – dos personagens, cria uma dissociação com a realidade digna de uma obra apocalíptica, nem mesmo o título dos capítulos merecem levar um nome. A maldade está lá, cabe aos mais fortes sobreviverem, ninguém vai ajudar, ninguém vai sequer argumentar a favor do certo ou errado, porque o meridiano de sangue é uma terra onde os fracos não tem vez!

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Italo
Graduando em Biologia pelo amor às variadas formas de vida e suas estratégias de sobrevivência, tenho prazeres simples como ouvir a chuva ou observar o céu noturno. Fã de música, filmes e jogos em geral, minhas maiores viagens são pelas folhas de um bom livro.

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