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A maior virtude da quinta temporada de Game of Thrones foi ter se distanciado dos Livros.

A quinta temporada de Game of Thrones

se distanciou ainda mais do material original

de George R. R. Martin.

Tal decisão poderia ser considerada um péssimo rumo para uma adaptação literária, mas surpreendemente essa foi a sua maior virtude…

Ainda traumatizado com os acontecimentos do episódio nove da quinta temporada, comecei a refletir sobre os acontecimentos recentes. Verdade seja dita, o início da quinta temporada de Game of Thrones foi bem devagar, especialmente se comparada com as duas últimas. O terceiro livro de Martin: A Tormenta de Espadas que serviu de base para a temporada 3 e 4 da série é um primor em termos de enredo. O livro de mais de mil páginas narra um verdadeiro embate entre os principais personagens da trama. Só para mencionar alguns acontecimentos temos aí O Casamento Vermelho, O Casamento Roxo, o Julgamento de Tyrion, a Batalha pela Muralha e a Conquista das Cidades escravagistas pela Daenerys. É um livro com um ritmo alucinante, e que pavimentou o sucesso das duas últimas temporadas da HBO. Ponto para o Martin que conseguiu expressar tantos momentos de explodir a cabeça em pouco mais de mil páginas.

Após o clímax narrativo do terceiro livro, Martin escreveu a continuação de sua saga nos livros “O Festim dos Corvos” (2005) e “A Dança dos Dragões” (2011). Ao analisarmos o ritmo e o conteúdo dos dois livros fica claro que eles são livros de transição do universo de Martin. Ele expande ainda mais o já complexo universo estabelecido nas quase 3000 páginas da crônica, de forma tão absurda que foi necessário dividir a continuação da história em dois livros separados (pasmém) por região e não por cronologia.

Mas o que isso significa meu jovem? A história se tornou tão complexa que não seria possível o livro ter o clímax desejado em menos de 1500 páginas. Embora parte de uma saga, os livros precisam apresentar começo, meio e fim satisfatórios para os seus personagens. A obra não precisa existir por si só mas deve apresentar um arco que deixe os leitores satisfeitos com o rumo de seus personagens, mesmo que isso signifique mortes horrendas e impiedosas. Dessa forma, Martin preferiu dividir o livro em duas partes contando o arco de um grupo de personagens em cada livro.

Pois bem, o quarto livro apresenta novos e interessantes personagens, mas eu já havia investido tanto em personagens como o Tyrion, Daenerys e Jon Snow que fiquei decepcionado com o seu conteúdo. O ritmo volta a ser mais lento como o do primeiro livro, novos nomes e personalidades, novas casas e novos interesses. A Dança dos Dragões é um pouco melhor, por tratar de arcos dos personagens mais interessantes, mas ainda cai no mesmo problema. Reiniciar um universo já tão complexo tornou o ritmo dessas duas obras devagar, uma transição até justificável se você pensa em apresentar o novo clímax da saga no sexto e sétimo livros.

Dito isso, terminando de ler o quinto livro me deparei com um dilema: como adaptar dois livros tão complexos e lentos após a explosão que foi A Tormenta de Espadas? É óbvio que a série não pode dividir a temporada por regiões como fez o Martin, uma atitude aceitável para os leitores que já se dispuseram a ler duas mil páginas nos três primeiros livros. A série da HBO contém dez horas de conteúdo por temporada, um orçamento invejável mas limitado e principalmente: precisa ser mais dinâmica.

Embora tenha um início devagar e conturbado, a quinta temporada contém um ritmo melhor do que boa parte do quarto e quinto livro. Por ter se distanciado da obra de Martin e trilhado o seu próprio caminho a temporada conseguiu estabelecer um clímax ainda mais significativo na sua finalização. Por incrível que pareça, a melhor parte dos episódios dessa temporada não estão contidos nos livros. Quer saber quais são? Continue lendo meu nobre…

A partir de agora irei mencionar acontecimentos da série até o nono episódio da quinta temporada e irei fazer um paralelo com os acontecimentos do quarto e quinto livros do Martin. Portanto, segura na cadeira aí que lá vem o SPOILER.

 

Hodor lhe avisando de forma poética os Spoilers contidos no restante do post. Cersei não recebeu bem toda essa informação.

Acertos da série

Sansa

A mudança mais polêmica da série, o casamento de Sansa Stark com o Ramsay Snow Bolton. Nos livros Sansa fica no Ninho da Águia cuidando do mimado Lorde Robert ao lado de Mindinho. Quem se casa com Ramsay é uma amiga de infância de Sansa, a até então desconhecida: Jeyne Poole. Jeyne é forçada a se passar por Arya, que é dada como desaparecida no Norte, para legitimar Ramsay como senhor de Winterfell. Considero essa uma das melhores modificações da série. Colocando a Sansa nesse contexto, e não uma completa desconhecida, cria-se um arco com muito mais peso tornando as ações do bastardo Ramsey ainda mais grotescas.

Jõao das Neves e os Caminhantes Brancos

Fazer o Jon sair da muralha (algo que não acontece nos livros) tornou todo o processo da entrada dos selvagens ainda mais temeroso. Você teme pela morte do bastardo durante todo o momento, inicialmente pelas mãos dos próprios selvagens e depois contra o exército MotherFucker dos mortos. Aliás a batalha do episódio “The Gift” dessa quinta temporada é a melhor batalha apresentada até agora em GoT. Além disso, nos livros os caminhantes brancos mal aparecem após o terceiro livro, após o ato heróico do Jovem Nerd Sam. Aqui na série já tivemos inúmeras revelações sobre a hierarquia do exército dos mortos, como eles transformam bebês em um servo do capiroto e como fica claro a diferença entre um caminhante branco e um mero morto-vivo. Enquanto nos livros eles são tratados como uma possível ameaça, na série ela é eminente e promete ser o inimigo comum nas próximas temporadas.

Arya

Este talvez seja o arco mais parecido com o dos livros, mas a série acertou em cheio em retornar com Jaqen H’ghar para fazer o papel de seu mentor. Nos livros Jaquen não volta mais a aparecer, um desperdício de um personagem tão enigmático.

A mulher do Stannis e o Fela da puta!

A mulher do Stannis e o Fela da puta!

Stannis

Essa mudança doeu na alma. O arco de Stannis seguia razoavelmente parecido com o do livro, no entanto, no livro ele não queima o Mance verdadeiro, e nem tampouco queima a própria filha na fogueira. Sim meu caro, até onde sabemos nos livros a pobre criança parece estar em segurança, feliz e sorridente com seus livros de aventura. Ainda assim as decisões tomadas pelo fela da puta do Stannis foram o ponto alto do macabro na série. Finalmente nos lembramos do porque GoT é a série que é.

Tyrion

O arco de Tyrion foi simplificado na série. Nos livros ele é levado por Illyrio Mopatis, aquele mercante que apareceu brevemente nos primeiros episódios da primeira temporada. Usar Varys como acompanhante fez muito mais sentido. Além disso, nos livros são apresentados também Jon Connington e Aegon Targaryen, que possuem um certo peso na trama. É plausível a decisão de não apresentá-los na série, já que até Bran foi deixado de fora nessa temporada por falta de tempo.

Bran

Essa foi uma decisão difícil de engolir de início. O arco do Bran nos livros é realmente devagar mas ele tem um aspecto místico interessante a ser apresentado. Acontece que vendo a série, fica difícil decidir quais cenas retirar ou reduzir para ver Bran estudando com o seu mestre árvore. Deixá-lo para a próxima temporada vai dar um impacto mais interessante para a série, onde poderemos ver com mais detalhes os resultados de seu treinamento.

Drogo em mais uma crise da adolescência.

Drogon teve uma discussão bem acalorada com os torcedores na arena de Mereen.

A Batalha na Arena de Mereen

Um outro ponto positivo da série, na cena do último episódio Dany é atacada pelos Filhos da Harpia e seu dragão a salva em uma cena surpreendentemente bem feita. Nos livros, Dany não é ameaçada pelos filhos da Harpia na arena, mas Drogon aparece descontrolado atacando os habitantes de Mereen. Colocar Dany em perigo muda a ótica da cena, Drogon aparece aqui como um salvador não uma força incontrolável da natureza. Confesso que prefiro mais a versão da série, já que nos livros os dragões causam mais problemas do que realmente ajudam.

Nem tudo são flores…

Algumas decisões da série me deixaram um pouco decepcionados. Seguem abaixo algumas que considero equivocadas.

Lady Stoneheart

Sabemos que essa decisão foi mais por questões práticas do que o apelo pela história. Trazer uma atriz do calibre de Michelle Faurley para interpretar uma zumbi impiedosa parece um desperdício de dinheiro e talento. O problema é que ela é o motor que move dois outros arcos importantes no livro, o da Brienne e o do Jaime. Além disso ela é um fator incontrolado e imprevisível no qual a série poderia se apoiar para gerar reviravoltas. Fiquei esperando muito a sua aparição no final da quarta temporada e… que decepção.

Jaime

Deixo bem claro que escrevo isso após o nono episódio da série, mas o arco de Jaime é o de menor destaque na temporada. Ele foi salvar a sua sobrinha contra a vontade dela, foi preso e será libertado como se nada tivesse acontecido. É óbvio que ele precisava estar fora da cidade assim como nos livros para que os acontecimentos com a Cersei fossem possíveis, mas nos livros ele tem que se encontrar com a Lady Stoneheart. Não não temos ideia do que poderá acontecer com o pobre cotoco nesse encontro. Muito mais interessante não?

Brienne

Mais um núcleo que sofre com a falta da Lady Stoneheart mas que terá um desfecho no último episódio da quinta temporada. Brienne ficou de lado quase toda a temporada, com alguns encontros e pouca evolução, esperamos que o último episódio traga uma finalização mais interessante para a personagem, que deve ter que salvar Sansa das garras do monstro Ramsay. Nos livros ela é capturada pela Lady Stoneheart e não sabemos ao certo se ela foi morta ou se só está capturada. Mais um momento “Game of Thrones” desperdiçado na série.


Pois bem, de forma geral vejo as decisões de simplificação da série muito acertadas. Estou ansioso para continuar lendo os livros mas confesso que o nível de complexidade da obra de Martin é um empecilho até para uma série de 10 horas por temporada da HBO. O próprio Martin reviu inúmeros conceitos ao participar da produção da série, já que ele escreve esses livros a mais de vinte anos. Segundo o próprio, a série e os livros são duas obras diferentes.

Mas essa é apenas a minha opinião. Há inúmeras divergências não citadas aqui que podem deixar fãs felizes ou malucos. Comente aí em baixo meu nobre, o que você acha das adaptações da série? Acha que simplificar demais a trama pode reduzir a obra do bom velhinho?

Paz e Bacon.

 

Diego Elias
Hiper-ativo para as coisas inúteis desde criança, entusiasta de games de todos os tipos, crítico barato de cinema, invicto nas partidas de Perfil na casa do Tio Elias e aspirante a cientista nas horas vagas.
  • Sabe o que é engraçado pensar. A série chegou num ponto onde não existem livros como base. Será que haverão reclamações de coisas que acontecerem na série não estarem nos próximos livros???

    • Sem dúvida Claudio!
      Acho que inúmeras revelações dos caminhantes brancos por exemplo vão ser descritas no livro 6.
      Creio que prejudica mais a experiência da leitura do que ver uma obra literária adaptada, por exemplo, mas é o pato que pagamos pelo Martin demorar tanto a escrever.

      Pra mim, isso é mais um motivo para querer que a série se distancie um pouco dos livros, assim teremos duas obras distintas para apreciar 🙂

  • Claudio Sousa

    Excelente texto Diego. Ouço muito mimimi de quem leu os livros. Acho que se fossem transpor exatamente o que está escrito não faria sentido criar uma série de TV. A liberdade criativa deixa o espectador com 2 formas de visitar o grandioso universo criado pelo tio Martin e se divertir com duas mídias distintas. A temporada atual está mais lenta, mas nada que me faça desistir de acompanhar os acontecimentos de Westeros (como já li e ouvi alguns dizerem). A expectativa pelo que vem por aí e a imprevisibilidade do que pode acontecer já são fatores suficientes para continuar imerso nesse intrigante universo!

    • Exatamente o meu ponto Claudio!
      Aliás, arrisco a dizer que se a série fosse mais fiel ao livro a temporada seria ainda mais devagar do que foi… É ainda mais interessante ver as obras como complementares, ainda mais sabendo que há o dedo do Martin em ambas…

  • Fala Diego, parabéns pelo texto fera. Temos opiniões bem parecidas para quem leu os livros.
    Demorei um pouco para aceitar as diferenças entre livro e série, mas pulei esse preconceito
    bobo e resolvi apreciar as duas obras magníficas separadamente.

    Para não fazer citações de todo o texto, o que acabaria gerando um texto de praticamente
    igual tamanho, tenho pequenas considerações. Concordo com os acertos da séries como você expôs. Nada como pegar algo já criado, adaptá-lo com a possibilidade de melhorias. E fizeram isso decentemente. Sansa, Jhon, Arya, Tyrion. Esse último ainda espero pela introdução do possível “Aegon”. Acho que será um núcleo de peso no desfecho da história. O treinamento do Bran renderia só uns 30min na série (bem resumido). Podem usar como flashbacks na próxima temporada, mas pelo menos precisam explicar um pouco o que ocorreu nesse tempo.

    Único ponto que discordo são os dragões. Lógico que estão usando esse fator por ser o ponto forte da série. É o que o povo quer ver. Mas poderiam ter mantido a selvageria deles como no livro. Queria ver Quentin sendo torrado pô! kkk’ Teremos Dany caminhando pelo mar dothraki e Drogon grilado na sua caverninha? Será que teremos Khal Jhaqo? Bom, só nos resta o ep10. Mas ok, não considero um ponto negativo. Mas esses dragões estão fodas na série não? Que CGI sensacional!

    Pra mim não terá Stoneheart. Dá pra adaptar de outras formas. Acho que estão fazendo isso no arco da Brienne. Mas ainda tenho um pouco de esperanças de que ela apareça.

    Algo que você não comentou e creio que virá na próxima temporada é o núcleo Greyjoy (Euron, Victarion). Estou ansioso por isso! E Vilavelha. Extremamente curioso para ver os planos dos Meistres pilantras que controlam o mundo e nem percebemos kkk

    Pra finalizar, sobre adaptações e mudanças e novos rumos. Tudo certo, tudo perfeito. Mas e o livro 6? será que não estamos tomando uma enxurrada de spoilers na cara? Não tiraria a graça de ler Os Ventos de Inverno? Talvez não, mas… fica um certo receio, mas continuarei lendo, assistindo, criticando, elogiando. heheh

    Kra, curti a oportunidade de trocar ideia com algum conhecido sobre os livros/série. Frequento mt o gameofthrones.br mas não é a mesma coisa. Se tiver uma galera pra trocar ideia/teorias e tudo mais, tamo junto! Vlww

    Ps.: Prefiro nem comentar sobre o POV do Stannis… =\
    Ps²: Acabou que o texto ficou longo kkk

    • Grande Ewerton!
      Valeu pelo comentário brother, pelo visto temos opiniões bem parecidas mesmo.

      Entendo a sua posição com relação aos dragões, no livro isso é construído mais lentamente e quando chega no ápice da arena de Mereen você compreende bem a ação do Drogon. Você sabe que ele é incontrolável, e que nem mesmo Danaerys pode controlá-lo. A gente chega a ter dúvidas se os dragões realmente irão ajudar Danaerys ou se eles vão fazer só o que quiserem mesmo.

      Na série os dragões ainda são encarados como uma fonte de poder razoavelmente controlada. Mesmo aprisionados Dany usa isso para ameaçar os chefes da cidade. Agora, a cena do Quentin no livro é fenomenal, infelizmente creio que não teremos isso na série 🙁

      Fiquei sabendo da inclusão do núcleo Greyjoy na próxima temporada, mas não sei exatamente qual vai ser o papel deles já que cronologicamente eles estão bem atrasados se comparados ao livro.

      Com relação aos spoilers, sem dúvida estamos tomando na cara algumas das revelações do livro 6. Acho que mais do que ver uma série adaptada, ver um livro conhecendo os rumos da história pode prejudicar um pouco a experiência. Um exemplo é se a ação do Stannis nesse último episódio também acontecer no livro. Mais do que nunca agora eu espero que as obras sigam caminhos diferentes.

      No mais esse é apenas o primeiro post sobre GoT, vamos ter muitas discussões ainda pela frente.
      Abraço o/

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