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Os Filhos da Noite

Vendido como um épico nos moldes de Scarface, Os Filhos da Noite deixa um pouco a desejar. Depois de escrever romances policiais no melhor estilo noir, escrever sobre traumas de infância e o peso disso na vida com o excelente Sobre Meninos e Lobos (que foi ao cinema por Clint Eastwood) e conduzir uma investigação policial em um manicômio com Paciente 67 ( que deu origem ao filme A Ilha do Medo de Martin Scorcese), Dennis Lehane agora aventura-se no mundo da máfia.

Dono de uma narrativa limpa, direta e violenta, e já bem estabelecido na literatura norte-americana, com duas grandes obras suas com adaptações de ponta no cinema, Dennis Lehane lançou seu romance mais recente em 2012, intitulado Os Filhos da Noite, o livro promete uma típica história de máfia nos melhores moldes de Scarface e Os Bons Companheiros ( como é vendido na própria sinopse do filme) mas que infelizmente não chega nem aos pés dessas grandes obras.

Passado na década de 20 em plena Lei Seca dos EUA, o livro conta a história de Joe Coughlin, típico adolescente conturbado de Boston que vive cometendo pequenos delitos e acaba se apaixonando por uma garota de um poderoso mafioso local. Tal fato muda pra sempre a vida de Joe, colocando-o para sempre fora das margens da lei, onde é obrigado a se envolver com o mercado clandestino de rum e galgar seu lugar ao Sol.

O livro pode ser divido em duas partes distintas: uma que narra a adolescência de Joe desde seu envolvimento com Emma Gould, o grande amor de sua vida, e culminando com sua passagem pela prisão; outra que narra a ascensão do império de Joe em Tampa. A primeira parte do livro é de longe a melhor, pesada e fascinante, ela ressalta bem os momentos que definiram a vida de Joe, como a paixão por Emma, a relação conturbada com o pai, o envolvimento com criminosos, enfim um fiel retrato da juventude e sua eterna rebeldia sem causa.

O que se encaminhava sim para uma excelente obra, cai de ritmo e descamba quando na segunda metade do livro, somos apresentados a um inteligentíssimo Joe Coughlin, acabado de sair da prisão e enviado para um território hostil para tomar o controle, mas que se apresenta como um personagem legal, gente boa, não adepto à violência e sempre disposto a perdoar. Os 2 Joe’s mostrados no livro parecem ser personagens completamente diferentes, e é difícil creditar a conquista de um verdadeiro império pelas mãos de um Joe bonzinho, sustentado praticamente pelos laços de amizade. O fato é que a fama de “gangster bom” não vende. Os diálogos de Lehane sempre foram marcantes e com Joe não é diferente, ele sabe que é um gangster, que faz parte do crime, da “noite”, mas não é isso que parece e Joe faz cagada atrás de cagada, chegando ao ponto de perdoar inimigos implacáveis e vingativos, e mesmo assim aumentando sempre sua riqueza.

Os personagens secundários são excelentes sim, mas é complicado imaginar um gangster no topo do crime e com tantos amigos verdadeiros, nem a “gangue” de Joe tem rostos ou nomes, e apesar de seus vários homens, o livro só mostra Dion, seu braço direito. O mesmo pode-se dizer de Graciela, personagem de importância vital no livro mas que fica deslocada no meio do mundo do crime.

Todavia, os pontos fortes de Dennis Lehane continuam presentes no livro, a boa narrativa, diálogos sagazes e um bom nível de violência estão presentes em todo momento, tudo isso embasado pelo excelente trabalho de ambientação que o autor faz, com grandes acontecimentos históricos entremeados a trama: a Lei Seca, a guerra fria entre EUA e Cuba, a ascensão da Klu Klux Klan, tudo isso complementa a obra e segura as pontas bem o bastante para não ser um desastre, no fim das contas você até passa a olhar Joe como uma pessoa notável que só entrou no mundo do crime por força do acaso.

Enfim, Os Filhos da Noite tinha tudo para ser um clássico mas segue com altos e baixos e com uma trama um pouco insonsa e difícil de engolir. Os Filhos da Noite já teve seus direitos comprados e deve ser mais um dos livros do autor à irem para as telonas. Vale a pena pela excelente narrativa do leitor, mas sem se comparar com grandes obras sobre a máfia, leia sem esse peso de comparação e provavelmente o livro soará melhor.

 

 

Italo
Graduando em Biologia pelo amor às variadas formas de vida e suas estratégias de sobrevivência, tenho prazeres simples como ouvir a chuva ou observar o céu noturno. Fã de música, filmes e jogos em geral, minhas maiores viagens são pelas folhas de um bom livro.

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