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Por que virou moda odiar tanto o Final Fantasy VII?

Final Fantasy VII parece ser um daqueles títulos que desencadeiam discussões extremistas. Mas afinal de contas, porque virou moda odiar tanto a saga de Cloud e sua trupe do barulho?

E lá vamos nós!

Sem dúvida nenhuma, Final Fantasy VII (leia com voz nipônica por favor: Fainaru Fantajī Sebu) é um dos jogos mais discutidos nos fóruns gamers de todos os tempos. Estamos próximo do aniversário de 20 ANOS dessa obra e se você é um fã dos clássicos JRPG’s da época de locadora, sabe que esse assunto rende mais que farinha de milho caída lá no finalzinho da despensa.

Final Fantasy VII parece ser um daqueles títulos que desencadeiam discussões extremistas. Nessas discussões o que se vê é um nível altíssimo de fanboyismo destilado para ambos os lados. Em um verdadeiro show de hipérboles, temos de um lado o grupo do “Melhor RPG de todos os temposversus o grupo do “Jogo mais supervalorizado da história desse país mundão“.

Pois bem, tendo jogado esse jogo na época em que fora lançado e acompanhando de perto todas as discussões decidi  que seria uma boa ideia criar este post para tentar explicar a razão desse fenômeno social/gamístico. Afinal, foi pra isso que a internet foi criada.

Porque virou moda odiar tanto Final Fantasy VII? Pegue uma cerveja na porta da geladeira e um prato de Bacon, porque a história pode ser longa…

Super Hype

Vamos começar com o método de divulgação do jogo. A Sony investiu pesado no marketing do jogo, pois apostava no sucesso do seu recente console Playstation. Cloud, Barret, Aeris e Tiffa estavam com os seus polígonos coloridos em todos os lugares! Comerciais de 30 segundos nos principais canais de televisão americanos, outdoors, eventos publicitários feitos juntamente com a Pepsi, e por aí vai. Para a garotada CoD de hoje, FF7 foi o GTA5 de seu tempo. Se fosse lançado hoje ele teria uma propaganda no intervalo do Superbowl e um banner irritante na página principal do Youtube. Quem sabe até uma propaganda no fantástico, consigo até projetar o Zeca Camargo comentando do jogo: “Esse Sephiroth é mara!” – ele diria.

Essa super exposição gerou um buzz tremendo no mundo dos games. Eu na época, pequeno menino Diego, havia pouco me aventurado no mundo dos RPG’s mas já havia ouvido falar de FF7. A exposição era tanta, que sem jogar qualquer jogo da série fui ver o filme Final Fantasy: The Spirit Within esperando espadas gigantes, cabelos coloridos e magias. Tive que me contentar em ver o Ben Affleck em um super 3D realista…

Revolução dos JRPG’s

Final-Fantasy-VII

Um grupo de amigos entrando nas mais engraçadas aventuras e nas mais loucas encrencas pra salvar o mundo de um super-meteoro e um vilão malvado pra cachorro. Sempre na maior curtição! – Narrador da Sessão da Tarde

Pois bem, lançado em 1997 e custando 42 milhões de dólares, FF7 foi o game mais caro desenvolvido na sua época. O jogo continha um salto considerável no escopo dos RPG’s. Ele era massivo, cerca de 70 horas e com uma grande quantidade de conteúdo que veio a se tornar padrão para as gerações seguintes dos RPGs da Square. O jogo contemplava uma saga, com reviravoltas, side-quests, mini-games e um conjunto de segredos que vendiam revistas a torto e a direito.

O sucesso de Final Fantasy 6 e Chrono Trigger pavimentaram o boom que foi o FF7. Imagina trazer toda aquela imersão do mundo fantástico dos seus antecessores para a nova geração de consoles, para a TER-CEI-RA DI-MEN-SÃO. Para os gamers da época, a chance de jogar um RPG desse calibre em 3D fez uma diferença brutal no hype.

A plataforma Playstation contribuiu com mais um aspecto técnico: os Full-Motion Videos, ou como dizíamos no tempo da locadora, as CG’s. Crianças de todo o meu Brasil chegavam nas locadoras maravilhadas com aqueles polígonos obtusos mas cheios de molejo. Os CG’s marcaram a história dos jogos eletrônicos, e viraram referência no processo de se contar uma boa história. Parecia que nós jogávamos quase que exclusivamente pelos CG’s e a Square fazia questão de dar, em doses homeopáticas, 20 segundos de vídeos a cada aproximadamente duas horas de jogo.

A primeira cena do jogo trazia um alto nível de complexidade cinematográfica que não se via nos jogos até então. Se FF6 tem uma abertura fenomenal, enquanto a Tera rumo à cidade com a trilha principal do jogo, FF7 extrapolava isso com uma referência poética do espaço, uma vendedora de flores e a monstruosa cidade de Midgar. Copiado do cinema, a movimentação de câmera tomava forma também aqui nos jogos de videogame, que deram um passo além para a forma como contamos história nos jogos.

Sucesso de Vendas e Crítica

Nem tudo o que vende é bom. Nem todo sucesso é justificado com a qualidade da obra. Pobre Justin Bieber.

FF7 vendeu 2.3 milhões de cópias em três dias no Japão, e 500.000 cópias em três semanas no U.S. É até hoje o título mais vendido da Square, com 10 milhões de cópias vendidas no mundo todo, contanto também com vendas daqueles “remakes” safados liberados com propósitos nobre$. “Mas a Sony investiu pesado no marketing, isso não quer dizer que o jogo fazia jus ao seu Hype”. Sim, eu sei em quem você está pensando novamente. Mas FF7, ao contrário do nosso amigo ex-presidiário, foi um sucesso nos dois quesitos.

FF7 foi aclamado pela crítica e público. A versão do Playstation recebeu apenas notas acima de 9/10 na época e foi considerado pela GameFan como “O melhor jogo já feito”. Só para citar alguns outros, a IGN e a GameSpot deram 9.5/10 para a versão do console. Agora pense comigo, baseado nos padrões hollywoodianos, se você juntou sucesso de vendas e aclamação crítica em um mesmo título, você precisa de pelo menos mais três sequências para destruir a obra não é mesmo?

A Expansão do mundo

Final Fantasy Advent Children (BluRay Cover)

Final Fantasy Advent Children (BluRay Cover)

Você que conhece a franquia sabe que as história de um título para o outro são independentes. Muito se discute o fato de alguns jogos se passarem no mesmo universo, mas a verdade é que isso é muito pouco relevante para a série. Hoje eu diria que faz parte do charme da franquia. Pequeno Diego diria que isso é uma jogada esperta, feita unicamente para que ele comprasse o FF8, uma história de amor em 4 CD’s.

FF7 foi um dos poucos títulos a extrapolar isso, devido à sua popularidade ($$$). Os jogos lançados ao invés de continuarem o arco estabelecido com todos os heróis, foram na verdade spin-offs de personagens que apareceram na história. Temos aí FF: Dirge of Cerberus com o Vicent, o arquétipo do vampiro sentimental cool, obliterado pela franquia Crepúsculo; FF Crisis Core, que conta a trágica história de Zack. Mano, o negócio tomou propoções tão grandes que a Square ainda produziu dois filmes, um curta contando um prequel (The Last Order) e a continuação com uma animação insana (Adventure Children) que vendeu mais de 4 milhões de cópias no mundo todo.

Saturaçao

Você que me acompanhou até agora na minha tortuosa linha de raciocínio, viu à milhas de distância o que eu vou ponderar. FF7 foi um título tão importante para a franquia que virou uma muleta extremamente lucrativa para a Square, que sugou até a última gota o leite dessa vaquinha outrora saudável. A história do FF7, por mais complexa e envolvente que seja nunca foi programada para uma exploração tão grande. Se você jogou FF Crisis Core sabe do que eu estou falando: Aeris o caso de amor trágico de Cloud teve algo aparentemente ainda mais intenso com o Zack. What!? Coincidências artificalmente criadas para suprir a necessidade dos fãs começaram na verdade a tirar o brilho da história original. George Lucas tem pesadelos com isso até hoje.

Essa saturação do jogo acabou jogando no ventilador os furos da história original. A história nunca foi o aspecto mais genial do jogo, especialmente porque o maior plot-twist é conhecido até pela minha tia lá de Barbassena. Vira e mexe ela acende umas velas pra a “Elis”, que segundo ela “morreu assassinada tragicamente enquanto rezava a novena de final de ano”.

Envelhecimento da obra

Junte a saturação que a Square ocasionou em sua obra ao fato de que FF7 envelheceu, e envelheceu muito mal. Aliás, poucos jogos da geração PS1 sobrevivem até hoje. Vai tentar jogar Syphon Filter hoje meu filho, você vai chorar com as expressões faciais ao melhor estilo Minecraft. As limitações do console e das técnicas aplicadas pelos desenvolvedores, contribuíram pra isso e virou até um estilo próprio, “gráficos estilo play one”, onde os polígonos são coloridos com giz de cera por um macaco para apresentar expressões que aquela arquitetura não permitia. Hoje com a modelagem 3D muito mais bem explorada, vemos o quão amadores estes gráficos são.

FF7 paga o pato nesse quesito pelo pioneirismo. Foi uma primeira tentativa, um ensaio. Basta observar a diferença da qualidade dos CG’s de FF7 com o FF8. Diferença na renderização dos personagens, que agora possuem uma mão menor que as suas cabeças. Eu não acho justo avaliar um game lançado em 1997 com padrões de hoje. Se FF7 jogo fosse lançado hoje ele seria um jogo indie, e eu provavelmente nem me atreveria a comprar uma cópia barata custando 5 dólares na Steam. Eu não compraria o FF8 também, mas o FF9, hmmm… esse está bonito até hoje.

Clube Restrito: A Razão por tanto Ódio

Ok, agora juntemos os fatos que analisamos e confabulamos até agora.

1) Final Fantasy VII foi um marco para a época, tanto em popularidade quanto de crítica. Isso é inegável: é o jogo mais vendido e explorado da franquia e foi responsável por apresentar os JRPG’s para milhares de crianças ocidentais que tiveram o prazer de crescer com essas histórias.

2) O jogo envelheceu e seu universo saturou. Jogar Final Fantasy VII hoje é um exercício de muita paciência, sem a metade da emoção que se teria na época em que ele foi lançado. Comparando especialmente com Chrono Trigger, jogar FF7 hoje é sofrível.

Para as pessoas que jogaram na época, FF7 foi um marco. Representou o melhor do gênero JRPG e consolidou a popularidade dos JRPG’s no Ocidente, embora a o título de “o melhor RPG já criado” seja altamente discutível. Mesmo após 20 anos do título original ele é o título mais valioso da franquia e a razão da tamanha pressão para que a Square-Enix lance um remake.

Mas una esse imenso destaque a uma obra que não consegue suportar bem o teste do tempo e você cria uma força tão poderosa quanto à do fanático tradicional: os haters. Nada alimenta mais um hater que o sucesso de sua obra odiada, e eles não vão sossegar até que o mundo admita que FF7 é supervalorizado.

Final Fantasy VII pra mim representou o melhor do JRPG na época, mas eu digo isso com a consciência do sentimento nostálgico envolvido no processo. Cada música, cada diálogo e até as famigeradas batalhas aleatórias me remetem àquele tempo feliz, onde a única preocupação que eu tinha era de chegar em casa mais cedo para jogar ainda mais meu PsOne virado de cabeça pra baixo.

Há de fato uma grande valorização em cima do hype que foi gerado na época. Talvez sem o marketing FF7 tivesse notas menores? É provável que o jogo acabasse por ficar no panteão das obras excelentes mas sem muito destaque onde Xenogears e Breath of Fire encabeçam a lista.

Nunca saberemos ao certo.

O que temos hoje é uma franquia que acaba sendo mais poderosa que a sua obra original, representa o início do mundo dos JRPG’s para uma geração e que por isso talvez receba toda a atenção dos fanboys e haters do mundo todo.

No final das contas, essa é a maior virtude de uma obra de arte, levantar sentimentos diversos em diferentes pessoas.

Paz e Bacon.

Diego Elias
Hiper-ativo para as coisas inúteis desde criança, entusiasta de games de todos os tipos, crítico barato de cinema, invicto nas partidas de Perfil na casa do Tio Elias e aspirante a cientista nas horas vagas.
  • SNK

    Você escreveu esse artigo uns dias antes do anúncio do remake. Que mágico!

    • Diego Elias

      Ha! Grande verdade… após o anúncio do remake deu para ver o nível do carinho que uma grande parte dos gamers tem com o jogo. O nível de hate parece ter sido dramaticamente reduzido nos fóruns e discussões que participo 🙂

  • Davis

    Joguei na época sem nem saber do que se tratava. Nunca tinha ouvido falar de Final Fantasy. Um amigo me recomendou sem muito entusiasmo e fui ver no que dava. Achei incrível, uma das melhores experiências que tive com o Playstation.

    Não sabia também que hoje era modinha odiar FFVII. Mas isso não se sustenta. O jogo é um clássico absoluto.

    • Jone darc

      ComoComo sempre fans de ff6, e chrono trigger atirando pedras no ff7 admita muitos jogadores só conhece outros jrpgs pq a porta de entrada foi ff 7. Envelheceu mal? Da pra ver a reação de expectadores por um remake de ff7 na E3 aposto q até VC do poste se cagou todinho quando viu a notícia… Aff,

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